As dúvidas compartilhadas nos divãs pelos pacientes são parecidas com as do próprio analista, como mostra “O ano em que me tornei psicanalista”, o novo livro de Tiago Mussi. O texto traz a trajetória dele como psicanalista, com ênfase no período em que faz sua formação na Sociedade Brasileira de Psicanálise do Rio de Janeiro (SBPRJ), ligada à Associação Psicanalítica Internacional (IPA), da qual é membro. Nascido em Niterói, Tiago Mussi é psiquiatra com mestrado em Psicologia pela Université Paris 13.
Considerado um ensaio de formação pelo autor, o livro lançado pela editora Blucher parte da autoficção para explicar os mistérios que cercam o ofício. Ao expor os bastidores sem medo, ele convida o leitor a testemunhar a formação de um analista, a partir dos relatos sobre sua primeira paciente, e os obstáculos que precisa vencer diante dos jogos sutis da transferência. Ao mesmo tempo, Tiago Mussi lembra da infância, fala dos questionamentos feitos na própria análise e detalha a supervisão recebida por profissional mais experiente.
“Talvez a escrita seja, ao lado da psicanálise, a única forma possível para desvelar o que se esconde sob o sentido manifesto das palavras. Será? Assim me parece. Se por um lado tanto o exibicionismo quanto o voyeurismo me impediriam de ir além do que Freud foi ao revelar seus próprios desejos em A interpretação dos sonhos, por outro, a escrita, e, sobretudo, a escrita da psicanálise, poderia me libertar”, escreve Tiago Mussi, que também publicou “Onde os paranoicos fracassam” (romance), “Por que os loucos escrevemos livros tão bons?” (contos), e recebeu o Prêmio Rio de Literatura por “Tão fútil e de tão mínima importância” (romance).
Em outro momento, o autor conta como a nova obra estabelece uma ligação entre ele e as pessoas citadas na história, como seu analista e sua supervisora, para falar também de como os ofícios de escritor e de psicanalista se aproximam: “Poderia dizer, à maneira de Lacan quando falava da família, que somos escritos pelo livro, mais do que o escrevemos.”